Sunday, December 25, 2005

É Natal!

É 25 de Dezembro e só me apetece falar do 25 de Abril. Por este motivo, acho que vou passar este Natal à frente, reflectir o 25 de Abril e, lá para Abril, tentar falar sobre o próximo Natal. A mestria de quem escreve está muito na capacidade de antevisão: Prognósticos depois dos jogos nada valem.
Pronto, está justificado porque passo este Natal à frente mas não encontraria justificação se não vos desejasse a todos um feliz e harmónico Natal. Por isso: Feliz Natal!

No próximo dia 27 este blog faz um aninho. É quase nada mas não deixa de ser, ainda assim, melhor que nada - mas este blog não tem que ser coisa alguma. É o que é. E nem eu nem os outros sabe o que isso significa.
Como estarei sem acesso à internet nessa fase (o verão está aí à porta), deixo uma palavra de agradecimento a quem por aqui passa: Obrigado a todos pelas palavras, pelas palavras que me fazem querer saber mais: Houve livros que li porque me deixei levar pelas vossas referências (que nunca me desiludiram); Houve assuntos que reflecti depois de ler a lucidez das vossas palavras; Houve pontos de vista que debati; Houve temas que realizei. Tudo isto vos devo.

Um abraço e até breve.

Monday, December 12, 2005

Procura-se...

...Menina bonita e inteligente, meiguinha, que tenha interesses pela lida da casa, que fale apenas quando é estritamente necessário e, acima de tudo, que não acorde com baba no canto da boca, com os olhos remelosos e com um hálito que reduz à insignificância os casos mais eminentes de saúde pública.

Monday, December 05, 2005

A quintinha das celebridades

O tacão de um sapato de salto alto que a Maria Joaquina, por esquecimento ou desprendimento, deixou preso numa das grelha do saneamento básico é, em Paris, para os parisienses ou para todos os que visitam a cidade da luz, pura arte. A arte é uma espécie de sorte pois depende muito mais dos olhos de quem a vê do que das mãos de quem a faz. Paris, tal como a arte, é uma sorte: O fotógrafo pode perder a sua existência tantas são as objectivas e a subjectividade a fotografar; O músico é parte intrínseca de qualquer esquina, extensão de qualquer espaço; O pintor que pinta arrisca em cada segundo ser pintado; o actor confunde-se e mistura-se com a multidão que cínica finge-se atenta a todas as coisas.
Em Paris, como em quase todas as coisas, não se deve começar logo pelo meio, sob o risco de nunca conseguirmos chegar a cada uma das suas partes. Quem parte do Norte para o Sul tem uma visão panorâmica da cidade oferecida pelo Sacré-Coeur, caso faça a investida de Oeste para Este a visão global pode ser apreciada do cimo da Tour Eiffel. Do Sul para Norte pode começar-se pela Bibliotèque Nationale de France e de Leste para Oeste por que não se iniciar na Operá Bastille?
O Louvres! Bem... O Louvres...
Era Novembro e eu não fora visitar os meus mortos – nesta reflexão lembro-me que tenho muito mais mortos que ainda estão vivos do que mortos realmente mortos. Em remissão para os meus pecados comecei a calcorrear Paris pelo Cimetière du Père-Lachaise. Assim, sem mais! Não me fazendo anunciar, avancei para uma visita a quem jamais ma poderia negar - ali as coisas têm a importância do pó, algo muito mais efectivo que os homens.
Segui o traçado amarelo no mapa - bem, aquilo não é uma quinta, é uma aldeia, uma vila, feita de flores, pedra e silêncio. O primeiro ilustre apareceu, quase como uma harmonia: Alan Kardec. Alan Kardec mexeu com os meus 18 anos. Mexeu tanto que tive que parar a meio e, até hoje, volvidos longos anos, não mais lhe peguei. Tenho medo. Medo! Medo de fazer algumas perguntas pelas respostas que lhe estão subjacentes. Depois vieram outros tantos, todos singelos, todos simples, tentando passar incógnitos na multidão: Proust, Oscar Wilde, Edith Piaf, Siegel, Pascal e por fim, o Jim. Se o jazigo de Oscar Wilde me impressionou pelo design e pelas centenas de lábios femininos marcados a baton na pedra fria (há homens que até depois de mortos continuam a seduzir), o jazigo de Jim Morisson, arrumado atrás de muitos outros, deixou-me aquela impressão de que muito pouco somos neste pequeno calhau que absorto gira em volta do sol. Junto ao jazigo estava um casal jovem vestido de preto e a chorar. Quem visse a cena de fora iria jurar que o morto acabara de ser sepultado. O casal estava perdidinho! Mais atrás, completamente bêbado (só bêbado, pois não me cheirou a droga), um jovem encetava um grandioso discurso e via-se que só ele sentia o calor dos aplausos. Pensei em Aldous Huxley e nas suas “Portas da Percepção”. Pensei nas portas e na forma como elas induziram aquele momento. Pelas portas Jim Morrison se erigira e sucumbira. Em busca das mesmas portas, ou de outras quaisquer, encontrava-me eu ali como me encontro em todos os lugares por onde passo. A vida... A minha vida, é um conjunto de circunstâncias que têm que se mesclar afinadas. Eu procuro e faço as minhas circunstâncias e, no entretanto, vou, com paciência, aprendendo a afinar.